Entrada 2: O Sol da Noruega
(parcialmente escrito em 13.04.2026)
Depois de dois meses aqui, entendo bem a relação dos noruegueses com o sol. Lembro de achar engraçado ver minhas amigas e meu namorado se espremendo nas frestinhas de luz solar durante os intervalos do Preparatório na África do Sul. Agora eu começo a ter dimensão da importância que o calor e a claridade têm por aqui. Isso porque ainda não fiquei completamente no escuro por três meses.
Escrevo do escritório, da cadeira rosa-antigo ao lado do toca-discos e das fitas cassete, parando de quando em quando para sentir o sol no rosto. Escrevo pensando que há 61 dias minha vida é completamente diferente do que foi até então: mais calma, mais livre, mais minha do que nunca foi. Eu tenho conseguido criar perspectiva, confiar mais em mim, confiar nos outros. Eu tenho gostado mais da minha vida e da vida em geral.
Do outro lado da moeda, v.em uma tristeza em ver que tudo isso existe e é possível, mas não para as pessoas que eu amo. Visitar uma escola aqui, por exemplo, é agridoce. Sou professora e filha de professores, trabalhei por quase sete anos em sala de aula, e lembro de todos os momentos em que faltaram recursos, cuidado ou limpeza nos lugares onde trabalhei. Lembro da turma que teve três meses de aula cancelados porque o teto caiu e a prefeitura se recusava a arrumar. Lembro dos meus colegas, dos meus pais, de mim mesma, exaustos e impotentes diante de um sistema educacional que nos adoeceu e continua adoecendo. Talvez faça um texto mais longo sobre isso na próxima semana, quando começar a trabalhar em sala de aula por aqui (pela primeira vez desde o diagnóstico de burnout). Nesse sentido, estar aqui e poder voltar a ensinar em configurações mais humanas me faz ter vontade de voltar à ativa.
Óbvio, esse não é um país perfeito, eu enxergo questões e falhas e coisas que, para mim, são impensáveis. E deixo bem claro que estou o mais longe possível da síndrome de vira-lata que é tão comum nos meus compatriotas. Mas é bom, e poder viver um pouco mais da forma como eu acredito que se deva viver me aquece o coração assim como o sol que, apesar de ainda ser raro em abril, me abraça e aquece o rosto e as mãos geladas quando aparece.
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