capy_baras

Entrada 1: “Bem-vinda”

Depois de dois meses no velho continente, meu computador finalmente voltou à vida, e ainda bem; embora goste muito de papel e caneta, tem certas coisas que só me fluem em tecla.
Planejei este diário por meses, pensei em frases que jurei lembrar (e esqueci), ensaiei publicar um livro antes mesmo de bater a primeira letra. Típico.

Enquanto o vento parece querer arrancar minha casa do chão, tomo um café de duas horas atrás e penso que, há dois meses, exatamente dois meses, saí do Brasil. E acho graça de todas as mentiras que ouvi sobre o que me esperava por aqui, das que me contaram e, principalmente, das que eu mesma contei; eu não previ muita coisa, e errei o pouco que previ. Eu não previa me sentir em casa tão rapidamente, nem me descobrir uma pessoa comunicativa, e eu jamais, JAMAIS, imaginei me apaixonar — por uma pessoa e por uma cidade. E mesmo assim, sei de cor os horários de ônibus, falo pelos cotovelos em inglês, português e até espanhol (enquanto não me resolvo com o norueguês), e ando fascinada por Trondheim: sinto que toda essa cidade, em todos os seus mil e poucos anos, já me pertence um pouquinho, e me deixo pertencer a ela também.

Eu pensava que sentiria uma saudade avassaladora de casa e que as interações seriam poucas e frias, mas a saudade não veio e as pessoas são doces… as únicas interações ruins que tive aqui foram com pessoas de outras partes da Europa, as que enxergam a América do Sul como uma grande massa disforme. Pensava que a vida amorosa seria um desastre (ou pior, celibato) e, bem, não poderia estar mais longe disso.

Estar aqui é tranquilo, e não sei se me faço entender quando digo que parece mais real. Eu, finalmente, sou uma pessoa qualquer… e vou te contar que é bom sentir isso pela primeira vez depois de vinte e tantos anos. Esses dias, relendo pela quarta vez O Livro dos Abraços, dei de cara com esse trecho de Profissão de Fé:

“Sim, sim, por mais machucado e fodido que a gente possa estar, sempre é possível encontrar contemporâneos em qualquer lugar do tempo e compatriotas em qualquer lugar do mundo.”

Galeano sabia das coisas...

Enfim, agora são quase 23h e finalmente escureceu. Fiz janta brasileira para nós aqui da casa, fiz as pazes com o que restava da birra da semana passada e o resto do brigadeiro mais caro que já fiz na vida virou só memória. E as minhas noites na Noruega são de frio, amor e silêncio.